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Se nós entendêssemos que todo o mundo está no mesmo barco…

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A vida seria mais simples se as pessoas não vomitassem felicidade falsa

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Se nós entendêssemos que todo o mundo está no mesmo barco…

Sim, a vida seria bem mais simples e espontânea se as pessoas não vomitassem felicidade falsa nem tentassem o tempo todo provar um equilíbrio que elas não têm. Ninguém acorda super bem todos os dias. Ninguém se sente disposto para uma cerveja depois do expediente todos os dias.

Às vezes nós ficamos mal mesmo, lembramo-nos de um monte de coisas parvas e queremos chorar na cama que é um lugar quente. Às vezes as coisas não parecem fazer muito sentido e nós queremos ficar fechadinhos dentro de nós mesmos.

Nós não somos obrigados a ficar felizes e comemorar porque é Natal, réveillon ou dia dos namorados. Nós não precisamos necessariamente de sorrir e querer curtir porque faz sol, porque nós estamos na praia ou porque disseram que a vida é simples e é o ser humano que complica.

Nós não precisamos rejeitar a tristeza como se fosse uma doença pestilenta. Ela faz parte da vida, tal como a alegria. Só precisamos tomar cuidado para não transformá-la em um hábito ou nos esconder atrás dela por medo de ser feliz ou ainda dar importância demais a problemas e principalmente a pessoas pequenas. Este é um exercício e tanto que pode levar anos ou a vida inteira. Mas parece-me que vale a pena.

A vida seria mais simples se as pessoas fossem mais elas mesmas. Se elas olhassem nos olhos dos outros e falassem sobre os seus problemas, os seus medos. A vida seria mais simples se a gente não precisasse provar que é bem-sucedido o tempo todo. Seria mais simples se nós pudéssemos gostar das pessoas independentemente da vida que elas levam. Se nós pudéssemos dizer sem constrangimento algum que nos estamos a sentir um monte de merda e que a vida às vezes pode ser bem complicada, sim. Talvez, se admitíssemos mais o caos que é viver, não sofreríamos tanto. Talvez, se desfocássemos mais daquilo que dizem que é importante, mas que não faz sentido para nós, fôssemos mais bem-sucedidos num sentido mais amplo.

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Talvez se mostrássemos mais os nossos rostos desmaquilhados e as nossas almas nuas, se não nos defendêssemos tanto uns dos outros, se não nos importássemos tanto em mostrar que somos melhores do que os outros, pudéssemos ser mais unidos, mais solidários, mais amados, mais amantes.

Se nós entendêssemos que todo o mundo está no mesmo barco…

Rogo pelo dia em que as mulheres casadas se assumam sozinhas e mal amadas, se for o caso. Rogo pelo dia em que as mulheres solteiras confessem que uma companhia faz falta, sim, e que fazer tudo sozinha pode ser muito triste.

Rogo pelo dia em que os homens tanto casados como solteiros afirmem com todas as letras que morrem de medo das mulheres e que nunca deixam de ser meninões. Rogo pelo dia em que as mães gritem desesperadas o quanto estão cansadas e as que não têm filhos lamentem esta lacuna nas suas vidas. Que todos se assumam meio perdidos, meio sozinhos nesta vida louca.

Rogo para que as pessoas assumam como o passado é doloroso e o futuro incerto. E depois de tantas confissões acaloradas, que elas possam respirar fundo, sorrir umas para as outra e seguir em frente cheias de coragem.

Que depois de tudo, a gente pudesse cantar juntos “I will survive” e nos sentir intimamente ligados ao outro por meio da nossa vulnerabilidade, por meio da nossa capacidade irrestrita e desgovernada de dar e receber amor.

(Texto de Sílvia Marques)

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